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De Mano pra Deivid: como foi e o que esperar

Estou de volta. Não que eu tenha ficado tempo suficiente escrevendo aqui n’O Diário Celeste pra alguém sentir falta, mas acontece que eu também senti um pouco de vontade de voltar a escrever. Então aqui estou. A ideia, no entanto, é escrever com menos frequência, talvez semanalmente, ao invés de fazer um texto por jogo. Como o calendário do futebol brasileiro é bem apertado, o texto tinha que sair quase que imediatamente após a partida, pois nos dias seguintes o assunto já era o próximo jogo. Além disso, cada texto me tomava umas duas horas, entre escrever e preparar as imagens. Tempo demais que eu achei deveria ser aproveitado de outra forma.

Mas chega de explicações. Inclusive, esse é um outro objetivo: ser menos prolixo. E também falar de outros assuntos, e não apenas de tática, que deixará de ser o único assunto para ser o principal.

Retrospectiva 2015

Quando parei de escrever, o técnico do Cruzeiro ainda era Marcelo Oliveira, com seu fiel 4-2-3-1. Esquema que, apesar de ser o mesmo 13/14, era executado de forma bem diferente. O bicampeão era propositivo, vertical e pressionava a saída do adversário; o de 2015 abdicava da posse, precisava de contragolpes e preferia marcar no seu campo. Clássico exemplo: mesmo clube, mesmo treinador e mesmo esquema, mas modelos de jogo diferentes.

Depois da eliminação na Libertadores, o Cruzeiro trocou MO por Vanderlei Luxemburgo. Uma escolha que se deu muito mais pela memória afetiva do presidente Gilvan do que por observação do mercado. Luxa chegou com três vitórias seguidas, mas logo o trabalho parou de dar resultado. Acontece com qualquer time que não tem um modelo de jogo bem definido. A situação era tão grave que Luxa conseguiu unificar as duas facções da torcida que se formaram após a demissão de Marcelo Oliveira: os que queriam a queda e os que não queriam. Todos eram a favor da queda de Luxa, no entanto.

Enfim, Gilvan cedeu à pressão e Mano Menezes chegou, mas foi Deivid quem dirigiu o primeiro jogo, contra a Ponte Preta. Usou um 4-1-4-1, que Luxa chegou a tentar e abandonou, mas com uma mudança: Henrique entre as linhas e Willians mais avançado. Vitória e ânimo renovado que encheram o Mineirão para a estreia de Mano no jogo seguinte contra o Figueirense. Mano manteve as ideias de Deivid, mas colocou Willian Bigode como referência móvel, à frente do meio-campo. Naquele dia, ele fez quatro dos cinco gols do time. Melhor estreia impossível.

Aos poucos, Mano foi testando pequenas variações. Inicialmente, colocou Alisson à direita e deu instruções a Willians para cobrir o lado, com Henrique subindo para preencher o lugar dele. Configurava-se ali o 4-4-2, que a princípio era apenas uma variação defensiva, mas que deu certo e foi se tornando a plataforma base da equipe. Registrei isso no dia seguinte à vitória contra a Chapecoense em SC:

Na partida contra o Atlético/PR, Arrascaeta começou no banco, pois voltava de um jogo do Uruguai pelas eliminatórias. Foi acionado por Mano no segundo tempo, modificando mais uma vez o sistema: o 4-4-2 dava lugar ao 4-4-1-1, que é bem semelhante, mas com Arrascaeta tendo liberdade de jogar por trás de Willian. Esse foi o sistema que perdurou até o fim do campeonato, como dito pelo próprio Mano em uma declaração dada para o PVC.

A escolha de Deivid

Antes do fim do campeonato, Mano Menezes já havia sido seduzido pelo dinheiro e estabilidade no cargo que os chineses ofereceram. Ali, a diretoria começou uma busca e até chegou a entrevistar alguns treinadores, pelo que li. No fim, em um movimento corajoso, escolheu não um currículo ou um treinador formado, mas a continuidade: Deivid, membro da comissão permanente do clube, foi alçado a treinador principal.

É claro que houve questionamentos, inclusive deste que vos escreve. Deivid ainda precisa de mais experiência neste cargo, e ainda está com sua formação em andamento. Porém, é uma escolha que reflete a disposição da nova diretoria em criar uma filosofia de jogo para o clube como um todo, e não apenas para uma temporada. Algo que, em tese, deve continuar de um treinador pra outro.

Essa atitude mostra que Bruno Vicintin e Thiago Scuro estão indo para a linha de frente, sem se esconder atrás de um treinador figurão, que tem as costas largas. Resta saber se terão força para aguentar as críticas e a pressão que certamente virá das arquibancadas e da imprensa tão logo venha o primeiro resultado negativo — algo que infelizmente ainda faz parte da cultura do torcedor brasileiro. E aqui incluo também os membros do conselho deliberativo e até o próprio presidente.

Conceitos mantidos

Logo nos primeiros treinos, Deivid já mostrou que daria continuidade ao trabalho de Mano. Mesmo com as contratações, o primeiro time inicial do ano deve ser bem parecido com o que terminou 2015, inclusive no esquema tático e no modelo de jogo. É o mesmo 4-4-1-1, apenas com a Marcos Vinícius como ponteiro direito na vaga de Willians, que ao que parece deve ser negociado.

Alguém pode perguntar: mas essa troca não muda o esquema tático? A resposta certa é: depende. O esquema tático é determinado apenas e tão somente pelo posicionamento inicial dos jogadores, ou seja, o lugar do campo de onde eles partem para executar suas funções em cada fase do jogo (fase ofensiva, fase defensiva e transições). A “posição de ofício” dos jogadores nada tem a ver com o esquema. Assim, se um meia entra no lugar de um volante, mas no mesmo lugar do campo, o esquema se mantém, ainda que eles façam funções diferentes.

Se você tiver dificuldade em entender, basta pensar neste exemplo: imagine que Mayke e Fabiano não estão disponíveis, então Léo vai pra lateral direita. Muda o sistema? Não, continuaria sendo uma linha defensiva com quatro, apenas com um zagueiro “de ofício” posicionado à direita dela. Outro exemplo: zagueiros que jogam como volantes (David Luiz no Chelsea de Mourinho) não fazem o sistema mudar para 3-5-2 ou 3-6-1.

É por essa razão que não me canso de repetir no Twitter: o esquema tático é só o início da análise tática. Qualquer debate que se encerre apenas no sistema é incompleto. É aí que entra o modelo de jogo, que é COMO o time joga em cada fase do jogo. Releia o terceiro parágrafo e você vai ter exemplos de modelo de jogo diferentes no mesmo esquema.

Mas qual era o modelo de jogo do Cruzeiro sob Mano? Pelas minhas observações, que certamente podem ser falhas, os princípios são: sem a bola (fase defensiva), compactação e marcação zonal, ou seja, o jogador ocupa o espaço, tendo como referência os companheiros, e não um adversário; quando a bola é roubada (transição ofensiva), passes curtos desde a defesa, sem apelar pro lançamento longo; no campo de ataque (fase ofensiva), mobilidade constante dos homens da frente para tirar a referência do adversário; e ao perder a bola (transição defensiva), atrasar a saída do adversário o máximo possível, para dar tempo ao resto da equipe para se recompor.

Talvez Deivid faça pequenas mudanças, mas nada que altere esse quadro geral. Pelo menos é a minha aposta. Pra confirmar, só mesmo observando os jogos.

 

É isso aí, esse é o meu texto de reestreia. Espero que tenham gostado e até semana que vem.

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