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A forma do bolo

Imagine que você vá fazer um bolo. Pega uma receita bacana, com passos bem explicadinhos e nos mínimos detalhes. Só que você vai usar ingredientes de qualidade duvidosa, ou substituir alguns por “equivalentes”, como trocar o tipo de farinha. E mais: troca a ordem de alguns passos, ou erra em outros, como o tempo de cozimento. A chance do bolo ficar ruim é grande. Aí vem alguém e diz: “mas também, você fez nessa forma quadrada, devia ter feito naquela forma redonda.” Faz sentido?

Por outro lado, o bolo pode ser maravilhoso de olhar. Super bem feito, confeitado, com cores vibrantes. Ter um desenho lindo. Mas aí você vai comer e ele está horrível, com gosto de fermento, solado. Afinal, o que é mais importante?

Belo formato, bem bonito. Mas será que é saboroso? (foto: bolosespeciais2010.blogspot.com.br)

Belo formato, bem bonito. Mas será que é saboroso? (foto: bolosespeciais2010.blogspot.com.br)

 

A analogia é simplista, mas é ótima pra entender porque botar a culpa SOMENTE no esquema tático pelo mau desempenho de uma equipe de futebol não é correto. Relembremos: o esquema tático é um resumo útil, que serve para explicar o posicionamento inicial dos jogadores no campo. Ele NÃO envolve a chamada “posição de origem” do jogador, nem também explica as funções exercidas por ele no plano de jogo. No fim das contas, o que conta mesmo é esta última parte: COMO os jogadores executaram suas funções, e não ONDE.

Sendo assim, não dá pra enfatizar o suficiente: não existe esquema melhor ou pior por si só. Pode-se ter tem uma preferência por algum, é gosto pessoal. Eu mesmo tenho. Porém, não afirmo que os esquemas que eu não gosto são ruins. Pois depende de vários fatores: os jogadores que tenho, as características deles e o plano de jogo que eu quero implantar na minha equipe. Plano este que, diga-se de passagem, é totalmente independente do esquema tático.

Na semana passada, após a vitória suada e sofrida do Cruzeiro contra o Tombense, a discussão era sobre o esquema tático do Deivid, que mudou do primeiro para o segundo tempo. Na etapa inicial, o mesmo 4-2-3-1 dos outros dois jogos, e na final um 4-3-3 bem claro. Dada a diferença de desempenho, muitos começaram a atacar o 4-2-3-1, como se fosse algo que não funcionaria mais, nunca, em lugar nenhum. Uma falácia: como dissemos, esquema tático, sozinho, não ganha e perde jogo nenhum. Depende muito mais dos jogadores e do modelo de jogo.

Um argumento bem mais aceitável é dizer que o 4-2-3-1 não serve para estes jogadores que o Cruzeiro tem. Mas veja, aí já estamos falando de algo ALÉM do esquema tático, que é a característica e qualidade dos jogadores. O que não dá pra dizer é que o “4-2-3-1 é ruim” e só isso. Diga-se: Marcelo Oliveira usava esse sistema em 2015, e foi taxado de teimoso de foi demitido. Mas foi o com esse mesmíssimo esquema que foi bicampeão brasileiro em 2013/14. Qual a diferença? Isso mesmo que você pensou: era outro elenco, jogadores diferentes, de características diferentes, que possibilitavam um modelo de jogo diferente. Não funcionou no ano passado, mas pros dois anos anteriores sim, e muito bem.

A formação do 2º tempo. contra o Tombense. Élber bem aberto segurando o lateral, MV armando e marcando, Henrique na dele e Miño dando dinâmica. No fim, Alisson e Rafael inverteram

A formação do 2º tempo. contra o Tombense. Élber bem aberto segurando o lateral, MV armando e marcando, Henrique na dele e Miño dando dinâmica. No fim, Alisson e Rafael inverteram

Outra falácia é dizer que um esquema qualquer é “ultrapassado”. Ora, há várias equipes de alto nível no mundo jogando nos mais diversos esquemas. Muitas jogam no 4-3-1-2 com meio em losango — usado por Luxa na Tríplice Coroa, lá em 2003. O 4-2-3-1 é usado por várias equipes grandes: Arsenal e Chelsea são bons exemplos. No Brasil, quatro dos cinco times que foram à Libertadores esse ano usam: CAM, Grêmio, São Paulo e Palmeiras. Mesmo o 3-5-2 e o 3-4-3 são encontrados, como no Chile de Jorge Sampaoli. E até o 2-3-5 — um esquema da década de 1920 — foi resgatado e repaginado por ninguém menos que Pep Guardiola no Bayern de Munique.

Voltando ao Cruzeiro, eu particularmente gostei muito do 4-3-3 usado na segunda etapa, mas não é porque é o “esquema do Mano” (outro mito, como explicaremos adiante). Este sistema parece ser o que mais dá suporte para o modelo de jogo que Deivid quer implantar, de controle do jogo com a posse de bola, propondo e fazendo o adversário correr. Além de ser o que melhor se encaixa nas características dos jogadores que existem no elenco. Mas isso não quer dizer que isso não funcionaria num 4-2-3-1. Ao contrário, pode funcionar muito bem. Desde que se treine para isso e que os jogadores assimilem.

O “esquema do Mano”

Muita gente também argumentou que o problema foi que “Deivid não deu sequência ao trabalho de Mano porque mudou o esquema tático”. Há um erro e um acerto nessa frase. De fato, Deivid não deu sequência ao trabalho, preferindo implantar sua própria forma de jogar. Mas essa mudança foi muito menos no esquema tático do que em qualquer outra coisa. Explico.

Uma rápida retrospectiva: Deivid, ainda na condição de interino, jogou no 4-1-4-1 contra a Ponte Preta no ano passado, inclusive sendo o responsável pela “inversão” de Henrique e Willians. Mano assumiu e deu continuidade, mas percebeu que a recomposição do ponteiro direito (na época, era Alisson) não estava acontecendo bem, e instruiu Willians a abrir cada vez mais para a direita para cobrir, com Henrique indo se alinhar a Ariel. Primeiro era só um movimento sem bola, mas depois Willians foi “efetivado” como ponteiro, dando liberdade para o agora ex-ponteiro direito circular, desenhando um 4-4-1-1, com Henrique alinhado a Ariel. Isso perdurou até o fim do ano.

Esse era o Cruzeiro de Mano na partida contra o JEC. Três volantes? Só "de ofício": Willians era ponteiro direito

Esse era o Cruzeiro de Mano na partida contra o JEC. Três volantes? Só “de ofício”: Willians era ponteiro direito

De forma que, se você olhar bem, o 4-2-3-1 que Deivid tentou nos três primeiros jogos é bem próximo do desenho que Mano usou no fim do ano. A diferença é o posicionamento dos ponteiros: com Mano, eles recuavam para ocupar o espaço na ponta da linha média, independente do movimento adversário. Com Deivid, os ponteiros permanecem à frente, só recuando caso o lateral adversário ataque o setor. Mas em termos de sistema, é muito semelhante: linha de quatro, dois alinhados à frente da zaga, dois abertos, um por dentro e um à frente.

Mas se o esquema é parecido, com Ariel e Henrique alinhados à frente da zaga, porque o time está tão diferente? A resposta está no modelo de jogo. Com Mano, o Cruzeiro se compactava atrás, defendendo os espaços. Assim, não precisava ficar correndo pra trás pra recompor. Com Deivid, as linhas são muito mais altas, o time tenta se compactar à frente, marcando alto. Se o time adversário consegue passar, vai ter campo pra avançar, e todo mundo tem que correr pra trás. A ruptura está muito mais aí: na forma de jogar, e nem tanto no desenho da equipe. Portanto, justificar o desempenho abaixo do esperado dizendo que Deivid rompeu com o esquema tático de Mano é uma meia verdade.

“Falem mal, mas falem de mim?”

Concluindo, é bem legal que cada vez mais e mais pessoas falem sobre tática. Isso melhora o entendimento do jogo e também a cobrança da torcida, a cobertura dos jornalistas e a qualidade das informações. Em geral, melhora o futebol. Porém, como ainda é uma coisa nova para muitos, certos mitos aparecem e são difíceis de combater. Esse é um deles: o esquema tático. Muitos nem sabem qual é a definição formal, e outros até sabem, mas limitam a análise apenas a isso.

Que seja. Para melhorar o futebol brasileiro, tem que ser como nos seriados japoneses: é preciso enfrentar um monstro diferente por vez.

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<p>candian</p>

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